A Escola Sindical 7 de Outubro é a afirmação do querer e do poder de homens e mulheres que trabalham nas indústrias, nos bancos, nas telecomunicações, nas minas, nos campos, nas escolas, nas ruas, capazes de pensar e construir o seu projeto político e a sua escola.

Constituiu-se como um centro de referência, autônomo e plural, de elaboração e socialização do conhecimento sobre os mundos do trabalho, urbano e rural, sobre a formação dos trabalhadores e sobre os desafios encontrados na ação e na organização sindicais.

Tornou-se um espaço de encontro de trabalhadores do Brasil e de outros países, desenvolvendo um fecundo processo de intercâmbio com universidades e centros de pesquisa e de assessoria ao movimento sindical.

Tem contribuído na formação de homens e mulheres, indivíduos e cidadãos, desenvolvendo suas potencialidades, fortalecendo o projeto político organizativo da CUT e reafirmando o projeto dos trabalhadores de democratizar a sociedade e de promover o desenvolvimento econômico do País sobre bases sustentáveis e solidárias.

 

A Escola Sindical e a rede de formação da CUT

Desde a fundação da CUT, a formação de seus dirigentes e militantes foi tratada como uma condição para que se articulassem o plano de lutas e a elaboração do projeto sindical da Central. Mesmo antes da constituição de uma organização nacional mais centralizada, já ocorriam atividades formativas em várias partes do País.

Ainda nos anos oitenta, a formação foi estabelecida como uma das prioridades da CUT e a estruturação da secretaria de formação foi uma das metas propostas no Plano Geral de Ação da Central em 1987. Desde então, vêm se aprofundando concepções de formação que se distinguem em suas formulações políticas, pedagógicas e metodológicas. Tal diversidade caracteriza e, ao mesmo tempo, constitui a Política Nacional de Formação da Central.

A Escola Sindical 7 de Outubro integra a rede nacional de formação da CUT, composta por outras seis escolas, localizadas nas diversas regiões do Brasil; pelas secretarias nacional e estaduais de formação; por sindicatos, federações e confederações e por numerosos educadores. Essa rede se organiza em fóruns ou coletivos nos âmbitos nacional, regionais, estaduais e microrregionais que discutem e fundamentam a política nacional de formação.

Participando ativamente desses fóruns, a Escola colabora na permanente reflexão sobre o projeto sindical cutista e sobre as inter-relações entre os mundos do trabalho e a educação, visando a manter a atualidade da política nacional de formação, respondendo de forma adequada aos desafios que a conjuntura nacional e mundial coloca para os trabalhadores.

Ao mesmo tempo em que trabalha para o fortalecimento de uma política nacional de formação na Central, a Escola volta seu olhar para a organização do movimento sindical cutista nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, que constituem sua região de abrangência, para a qual as atividades formativas são prioritariamente oferecidas.

A Escola participa da execução do Plano Nacional de Qualificação Profissional da CUT (PNQP/CUT) nessa região, contribuindo, com sua concepção pedagógica e suas práticas metodológicas, nos campos da formação de formadores e de dirigentes sindicais, e da qualificação profissional. Ao mesmo tempo em que dirige sua atuação para a construção e permanente atualização da política de formação e da estratégia sindical da Central, coloca para si mesma o desafio de intervir nas políticas públicas de educação e de geração de emprego e renda, para que se baseiem no direito de acesso aos bens culturais, na democracia, na sustentabilidade e na solidariedade.

A relação de organicidade da Escola com a CUT é um processo em permanente construção. Traduz-se numa integração efetiva das entidades sindicais na vida e na gestão da Escola, criando condições para que sejam contempladas em sua prática pedagógica a pluralidade de idéias e de experiências e a diversidade política presentes nos sindicatos e na Central. Essa organicidade deve substantivar-se, por outro lado, na contribuição real da formação à construção do projeto sindical cutista, na medida em que crie condições para a compreensão dos seus desafios imediatos e históricos. É a partir dessa concepção que deve ser qualificada a autonomia de que necessita para produzir conhecimento crítico, indispensável a toda formação que se pretenda transformadora.1

 

A concepção político-pedagógica

Desde sua primeira formulação, o projeto político-pedagógico da Escola Sindical 7 de Outubro se caracterizou pela formação integral dos trabalhadores, levando-os ao “pleno desenvolvimento de suas potencialidades”2, não apenas enquanto trabalhadores e sindicalistas, mas também enquanto indivíduos que integram uma totalidade social. A reinvenção da vida individual e coletiva não é apenas um elemento que se soma à formação política; todas as experiências humanas são elementos constitutivos de uma formação dos sujeitos para a autonomia.

Essa perspectiva se justifica por uma confiança na capacidade de todo homem e de toda mulher de pensar, de ter e compreender idéias. Isso implica a contraposição a um modelo de sociedade que distingue os que devem pensar daqueles que devem trabalhar e produzir.

Na Escola Sindical, o trabalhador é estimulado a se expressar e a exercitar sua capacidade de pensar de forma autônoma. Compreende-se a aprendizagem como um processo de construção do conhecimento. Por isso, procura-se evidenciar, na ação pedagógica, os mais diversos pontos de vista e concepções sobre cada tema tratado. O ato de estudar que o trabalhador realiza na Escola é um ato de criação e de recriação. Ele é motivado a “assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema, na procura de compreender as coisas e os fatos”3.

O trabalhador, ao vir para a Escola, já traz consigo um conhecimento adquirido e reelaborado ao longo de sua história pessoal. Não se trata apenas de um conhecimento intelectual ou de um acúmulo de informações, de crenças formais ou sistemáticas, mas de significados e valores, de experiências sociais, do modo como são ativamente vividos e sentidos. Esse saber é o ponto de partida da formação e é posto em confronto com outras formas de conhecimento, não com a finalidade de estabelecer hierarquia entre a experiência vivida e o saber sistematizado na academia ou em outras instituições socialmente legitimadas, mas para fazer nascer um conhecimento capaz de conjugar diferentes saberes.

As implicações de semelhante modelo se fazem sentir também nas relações que se estabelecem entre educadores e educandos.

Valoriza-se mais intensamente o exercício do pensar e a aquisição e aprimoramento de uma “atitude crítica, curiosa e criativa em face do objeto”4, em contraposição a modelos que se centram no discurso do educador sobre o objeto de estudo, com poder de qualificar o conhecimento do educando como certo ou errado. O saber não é entendido como algo estático e acabado que o educador entrega aos educandos; antes, é um direito cuja conquista exige esforço individual e coletivo. O princípio pedagógico subjacente é de que [...] as palavras, conceitos e teorias só constituirão um enriquecimento se forem resultado e prolongamento da nossa experiência e conquista pessoal, incorporados à vida, em todos seus aspectos, dos trabalhadores.5

No desejo de contemplar, nas atividades pedagógicas, “as particularidades de vida e trabalho dos trabalhadores”6, a Escola se defronta com a variabilidade do mundo do trabalhador. Entendendo que determinados usos lingüísticos cristalizam e reafirmam posturas ideológicas que tratam como idêntico o que é plural, deixando passar despercebida a necessidade de intervir com políticas específicas para tratar a diferenciação, a Escola prefere falar não em mundo do trabalho, mas em mundos do trabalho, com o intuito de dar evidência a esse caráter plural das relações de trabalho e das organizações de processos produtivos.

Ao mesmo tempo em que respeita essa diversidade dos mundos do trabalho e dos trabalhadores, procura cultivá-las, convencida de que a diversidade, quando não escamoteia os conflitos, mas os reconhece e os enfrenta, enriquece as partes envolvidas. Por isso, dá destaque a dois temas que perpassam transversalmente seu plano de trabalho, sendo abordados de diferentes maneiras nas atividades de formação. Trata-se das questões de gênero e raça.

A Escola é um espaço de formação de mulheres e homens de múltiplas raças e etnias. Embora, ao longo desses anos, tenham sido realizadas atividades específicas para mulheres ou discussões sobre a questão racial dirigidas especificamente a grupos diretamente interessados, a Escola compreende que gênero não é um problema a ser discutido apenas por mulheres, assim como raça não é questão apenas para negros ou etnias freqüente e, muitas vezes, impropriamente denominadas “minoritárias”. Essas são questões que afetam toda a sociedade, e a classe trabalhadora deve formular suas próprias políticas de reconhecimento e valorização positiva da diferenciação e de enfrentamento do preconceito e da opressão.

Citando a primeira versão de seu Projeto Político-pedagógico, podem-se sintetizar a proposta e o desafio da Escola Sindical 7 de Outubro em Repensar essas diversas questões, procurando conjugar dialeticamente o individual ao coletivo, o rigor à criatividade, eis o grande desafio que a Escola Sindical tem pela frente, na busca de homens e mulheres capazes de intervir numa sociedade dinâmica e conflitiva enquanto indivíduos autônomos unidos por uma mesma vontade política. 7

 

O plano de trabalho

O plano de trabalho da Escola é definido anualmente pelos fóruns de gestão institucional (o Conselho Deliberativo e a Assembléia Geral dos Associados), percorrendo um processo de discussão que incorpora o acúmulo de reflexões desenvolvidas nas atividades de formação; as práticas empreendidas pelos vários agentes da rede de formação cutista na região de abrangência da Escola; e as demandas provenientes das instâncias da política nacional de formação da CUT.

Nos últimos anos, na organização do plano de trabalho têm sido identificadas concentrações temáticas, que se denominam Áreas Estratégicas, por serem fundamentais para o enfrentamento dos desafios postos para os trabalhadores, diante das recentes transformações no mundo do trabalho e das estratégias governamentais e empresariais. Atualmente, distinguem-se as áreas Educação e Trabalho e Projeto Sindical da CUT .

Diversos eixos temáticos compõem cada uma das áreas estratégicas, reunindo atividades de formação afins e articulando os projetos executados pela Escola, nos vários âmbitos da rede nacional de formação.
 


  1. COORDENAÇÃO Provisória da Escola. Você já foi à Escola? [Belo Horizonte]: Escola Sindical 7 de Outubro, 1995. p.7-8.
  2. ESCOLA Sindical 7 de Outubro. Primeira versão do Projeto de Formação Sindical. Belo Horizonte: Escola Sindical 7 de Outubro, 1990 (ca.). p.42.
  3. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 2001. p.67.
  4. ESCOLA Sindical 7 de Outubro. Primeira versão... p.45.
  5. ESCOLA Sindical 7 de Outubro. Primeira versão... p.45.
  6. ESCOLA Sindical 7 de Outubro. Primeira versão... p.46.
  7. ESCOLA Sindical 7 de Outubro. Primeira versão... p.43.