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A
Escola Sindical pretende desenvolver uma ação educativa que contemple os
atuais dirigentes, os quadros intermediários e, a médio prazo, os
trabalhadores de base, para o pleno desenvolvimento de suas
potencialidades enquanto indivíduos, trabalhadores, sindicalistas e
cidadãos.
Essa
formação integral dos sindicalistas é reclamada seja pelo projeto mais
amplo de democratização da sociedade, para o qual os trabalhadores
contribuem em diversos planos, muitos dos quais supra-sindicais, seja pela
própria natureza dos sindicatos integrantes de uma totalidade social que
ao mesmo tempo os determina e sofre o impacto de sua ação.
A
problemática vital dos trabalhadores, com efeito, não se resume às
relações de trabalho, e considerá-los apenas como produtores, em sentido
estrito, implicaria em promover uma prática educativa baseada na ideologia
coisificante do capital acerca do trabalho. Se é verdade que a prática
sindical tem particularidades, inclusive técnicas, não é menos verdade que
ela só adquire sentido efetivamente libertário quando traduz uma
compreensão superior da totalidade social e da dialética por vezes
complexa entre o mundo do trabalho e as demais dimensões da experiência
humana.
O
sindicalismo democrático, por isso mesmo, requer de seus agentes uma visão
integradora da sociedade, capaz de conjugar informações econômicas,
políticas, culturais, éticas, de modo a assegurar diretrizes e ações
materiais que de fato correspondam à vontade histórica dos trabalhadores,
sem descurar quaisquer dados relevantes de sua realidade objetiva e
subjetiva. Está a exigir lideranças bem preparadas: com conhecimento da
realidade brasileira e internacional, conhecimento mais sistematizado do
mundo do trabalho e de sua evolução, com capacidade de elaborar e
organizar suas idéias, com clareza de objetivos, capazes de nortear a luta
dos trabalhadores por uma sociedade democrática e participativa. Além do
mais, na dinâmica da luta sindical começa a estar presente a preocupação
de reinventar a vida individual e coletiva, como um elemento sem o qual a
formação do dirigente sindical ficaria incompleta, desequilibrada.
Tal
proposta educativa, no entanto, coloca algumas necessidades, que as
diversas práticas existentes no campo da educação sindical e popular têm
reiteradamente explicitado:
A
necessidade de estabelecer os conteúdos programáticos a partir de um
instrumental rigoroso de análise da realidade, aproveitando-se o que de
melhor as ciências sociais e as demais ciências podem oferecer, e
evitando-se a pura doutrinação ideológica, que não ensina a investigar nem
a compreender a realidade. Trata-se, por outro lado, de tornar o ato de
estudar e o processo de aprender em algo consciente, lúcido: “estudar é
assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema, na procura de
compreender as
coisas e os fatos. Estudar exige disciplina. Não é fácil porque estudar
é criar e recriar e não repetir o que os outros dizem.” (FREIRE. A
importância do ato de ler, p.67)
A
necessidade de iniciar-se uma análise sistemática, baseada nos avanços da
psicologia e de disciplinas afins, das questões referentes à formação
individual no interior da luta sindical. Por exemplo: qual o impacto
cultural e comportamental sofrido por um operário fabril ou por um
trabalhador rural ao assumir a condição de dirigente sindical, isto é, uma
posição de poder dentro das entidades de trabalhadores? As relações
interpessoais mantidas no cotidiano sindical são qualitativamente
diferentes das relações autoritárias vividas por estes trabalhadores na
família, na escola, na fábrica, no campo? Até onde as relações
interpessoais de cunho autoritário afetam a própria ação do sindicato
enquanto sujeito coletivo? Como o sindicato pode contrapor-se às relações
autoritárias e discriminatórias predominantes no conjunto da sociedade?
A
necessidade de um estudo aprofundado acerca da dinâmica dos grupos: como
se estruturam os agrupamentos sociais, institucionalizados ou não, do
ponto de vista psicossocial? Quais as diferenças significativas, nesse
particular, entre sindicatos, comissões de fábrica, comunidades de bairro
etc.? Como se estabelecem e se mantém as relações de poder num grupo?
Liderança/liderados, coordenações, colegiados...
Como
estruturar o grupo de forma democrática? E o que significa a democracia a
nível individual e grupal? Que relação existe entre uma prática
autoritária ou democrática no Sindicato e o trabalho com a classe?
Repensar
essas diversas questões, procurando conjugar dialeticamente o individual
ao coletivo, o rigor à criatividade, eis o grande desafio que a Escola
Sindical tem pela frente, na busca de homens e mulheres capazes de
intervir numa sociedade dinâmica e conflitiva enquanto indivíduos
autônomos unidos por uma mesma vontade política.
Metodologia
Em função dos limites, necessidades e avanços do movimento sindical,
a Escola Sindical pretende, na realização de suas atividades, utilizar
uma metodologia coerente com o projeto de emancipação
político-ideológica da classe trabalhadora, projeto que vai se
elaborando na luta e na reflexão-teorização sobre essa mesma luta. E a
Escola é um instrumento, entre outros, no pensar e no fazer esse projeto
de uma nova sociedade, de um novo mundo social, cultural, moral.
Ela deverá incorporar ao seu projeto as experiências e reflexões
acumuladas no campo da educação sindical e popular assim como da
pedagogia transformadora em geral, buscando uma alternativa à educação
dominante, autoritária, elitista, excludente, contribuindo com os meios
ao seu dispor para o desenvolvimento de uma nova prática educacional,
gestada e assumida pelos trabalhadores e ligada às múltiplas dimensões
da sua vida cotidiana.
Da análise das experiências educacionais formais ou não formais e do
exame da realidade histórica, resultam algumas indicações
político-pedagógicas:
Todo homem é capaz de pensar, é capaz de ter e compreender idéias.
Isto parece óbvio, mas nunca é demais repeti-lo, sobretudo em uma
sociedade que seleciona previamente aqueles que devem pensar e aqueles
que devem somente trabalhar e produzir, desestimulando as grandes massas
de pensar e opinar, difundindo para isso, por meios velados e
ostensivos, uma ideologia que considera a capacidade de reflexão e
expressão um dom das minorias dominantes...
A Escola Sindical procurará contribuir para que os trabalhadores e
dirigentes sindicais possam exercitar sua capacidade autônoma de pensar
e de se expressar. Para isso, ela deverá garantir a todos os educandos a
possibilidade de conhecer os vários aspectos dos fenômenos enfocados, as
diferentes visões da realidade, as diversas concepções do mundo, pois,
do contrário, estaria subtraindo-lhes a capacidade de construir o seu
próprio conhecimento. “De fato, os trabalhadores, na medida em que
rompem o isolamento e a impotência a que estavam submetidos, reaprendem
a aprender e a determinar eles mesmos seu perfil, seu percurso e seu
destino.” (vários. Vivendo e aprendendo; experiências do IDAC em
educação popular, p.126).
O trabalhador, exatamente por sua capacidade de pensar e de adquirir
conhecimentos, chegará à Escola Sindical com um conhecimento acumulado.
Cada trabalhador tem sua visão de mundo, tem suas idéias, sua maneira de
ver e sentir as várias situações sociais, econômicas, políticas e
culturais. Todo este saber vem sendo adquirido e reelaborado na vivência
de um universo sócio-cultural e político – na família, na escola, na
igreja, no trabalho, na prática sindical, na participação em lutas
concretas e no contato com os meios de comunicação, em especial, com a
televisão e o rádio.
Este reconhecimento do saber acumulado nos leva a combater a posição
ideológica, nem sempre explicitada, de que só se estuda na escola, de
que ela seria a matriz do conhecimento. Fora da escolarização não há
saber ou o saber que existe fora dela é tido como inferior sem que tenha
nada a ver com o rigoroso saber intelectual. Na verdade, porém, este
saber tão desdenhado, “saber de experiência feita”, tem de ser o ponto
de partida em qualquer trabalho de educação popular orientado no sentido
da criação de um conhecimento mais rigoroso por parte das massas
populares. (freire. A importância do ato de ler, p.68)
O desafio que se coloca para os educadores e para suas instituições
de formação é como partir de fato desse conhecimento acumulado e fazê-lo
interagir com o saber já sistematizado, sem que um se subordine
previamente ao outro, nem que est
ou aquele seja desqualificado pela sua origem empírica ou acadêmica,
antes levando-os a se vivificarem mutuamente. O conhecimento do educando
não pode, de um ponto de vista democrático, servir como mero trampolim
para a verdade do educador ou da entidade de formação. Não se trata de
fazer uma concessão ao educando, como artifício pedagógico, para logo em
seguida repassar-lhe o saber dos que já sabem, nem tampouco de propor um
diálogo entre educador e educando com o itinerário do diálogo já
previamente determinado pelo educador e as suas conclusões previamente
estabelecidas. Trata-se, isto sim, de deflagrar uma dialética entre duas
modalidades de experiência intelectual e de saber igualmente válidas e
legítimas, para que da sua contraditória integração possa resultar um
conhecimento superior, a um só tempo universal e encarnado na vivência
singular.
No trabalho de formação sindical da Escola pensamos enfrentar tal
desafio envolvendo os educandos nesta discussão, explicitando o desafio,
e priorizando a pesquisa e o estudo coletivo (educadores e educandos) em
todas as fases da criação do conhecimento. E nas relações entre os
educadores e os educandos, mediatizados pelo objeto a ser desvelado, o
importante é o exercício do pensar e da atitude crítica, curiosa e
criativa em face do objeto e não o discurso do educador em torno do
objeto de estudo e do conhecimento do educando, qualificando-o de certo
ou errado. Esta atitude deve ser adquirida e aprimorada durante todo o
processo pedagógico, que se estende pelo dia-a-dia da vida sindical e
pelas múltiplas relações que se estabelecem no universo social. Não se
trata, portanto, de entregar ou transferir aos trabalhadores a
explicação mais rigorosa dos fatos como algo acabado, estático. Trata-se
de reproduzir, no processo educativo, o espírito inerente à luta dos
trabalhadores de que todos os direitos conseguidos são uma conquista e
que o saber também deve ser uma conquista individual e coletiva. “Uma
verdade só é fecunda quando se fez um esforço para conquistá-la. Ela não
existe em si e por si, mas foi uma conquista do espírito, e em cada
indivíduo é necessário que se reproduza aquele estado de ansiedade que
atravessou o estudioso antes de alcançá-la... Este representar, de fato,
aos ouvidos a série de esforços, erros e acertos através dos quais
passaram os homens para alcançar o conhecimento atual, é muito mais
educativo que a exposição esquemática deste mesmo conhecimento.” (gramsci)
Partiremos, pois, do princípio pedagógico de que as palavras,
conceitos e teorias só constituirão um enriquecimento se forem resultado
e prolongamento da nossa experiência e conquista pessoal, incorporados à
vida, em todos seus aspectos, dos trabalhadores.
Técnicas e procedimentos pedagógicos
A partir dessa opção político-pedagógica, coloca-se para a Escola a
necessária pesquisa de meios e situações de aprendizagem que permitam
aos educadores e
educandos exercerem o papel de sujeitos do processo de aprendizagem.
Em função de semelhante entendimento, pensamos em algumas propostas:
Ao elaborar a nossa programação de cursos, seminários e outras
atividades, partiremos da realidade concreta do movimento sindical: seu
grau de organização e o nível real de consciência dos trabalhadores; o
estágio atual e a natureza de suas lutas; especificidades do
sindicalismo rural e urbano; carências imediatas e históricas etc.
Além de partir da realidade vivida pelos educandos, ainda que de modo
não paternalista, é necessário utilizar técnicas e recursos pedagógicos
compatíveis com o universo cultural dos educandos. Para isso, será
necessário constante pesquisa, envolvendo educadores e educandos, das
formas de expressão popular, desde a linguagem propriamente dita até
seus cantos, suas danças, sua arte, enfim. A expressão política dos
trabalhadores certamente passa pelo resgate daquilo que poderíamos
chamar de discurso das classes populares, não raro estigmatizado pelas
elites dominantes.
De alguma forma, os recursos pedagógicos devem contemplar as
particularidades de vida e trabalho dos trabalhadores rurais e urbanos.
Eles devem ser permeados pela experiência existencial desses
trabalhadores.
Assim também, cabe politizar, no processo educativo, a dimensão
lingüística das relações sociais. A língua, falada ou escrita, é uma
forma importante do homem se apoderar de si e do mundo. É uma forma de
poder. O domínio das diversas modalidades de comunicação/expressão
lingüística, seja a língua falada ou escrita, seja a linguagem
lógico-conceitual ou o discurso narrativo, impõe-se ao trabalhador que
pretende confrontar o poder e a linguagem patronal. Sem estabelecer
falsas hierarquias entre os diversos usos da linguagem, sem erigir
qualquer variante lingüística em padrão corretivo, é essencial que se
desenvolva a expressão oral (geralmente já tão rica) e escrita dos
educandos, possibilitando a ampliação do seu repertório lingüístico,
incentivando o registro oral e escrito da experiência vivida, através do
jornal, do áudio-visual, do vídeo, entre outros recursos. A linguagem
enquanto leitura e escrita do mundo, entendimento e expressão do mundo.
Para que, na prática educativa, o conhecimento seja vivenciado como
uma conquista de fato, cremos que deve privilegiar-se a pesquisa em
todos os momentos do processo de formação: na escolha e organização das
atividades, na explicitação do saber do educando e do seu contexto de
vida, na busca de novas informações e de recursos pedagógicos adequados
e até na avaliação objetiva dos resultados do trabalho de
ensino-aprendizagem.
permitir a todos os participantes – educadores e educandos –
apropriar-se coletivamente dos resultados, do novo conhecimento, ao
mesmo tempo que vão tomando consciência dos passos seguidos na gestação
deste conhecimento. Por isto mesmo, a avaliação terá que ser permanente,
tendo como referência os objetivos da formação sindical e os interesses
de emancipação político-ideológica da classe trabalhadora, mediatizada
pelo mundo do trabalho e pela luta sindical:
- Que transformações estão ocorrendo no mundo do trabalho e
sindical?
- Que transformações estão se dando nas estruturas de produção e
na ordem dos comportamentos?
- Em que medida o trabalho de formação sindical está contribuindo
nestas transformações e em que direção estão se dando?
A questão está em como viabilizar e sistematizar, de fato, o processo
avaliativo. Faz parte de todo o projeto da Escola Sindical buscar formas
cada vez mais eficientes e globalizadoras de avaliação, através da troca
de experiências, do estudo e da pesquisa.
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